segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Eu gosto muito deste texto que publiquei 9 anos atrás, falando do meu pai.
Vou republicar aqui, afinal qualquer dia desses a Calliantéia pode sumir né?

O grande pescador de estrelas 

Seu Zé Carlos, ou simplesmente, seu Zé, adorava pescar. Desde que me entendo por gente era assim: pra vê-lo feliz, era só ele pegar umas iscas, sua sacola de "apetrechos" de pesca, a vara e ir pra beira do mar. Um exercício de paciência muito fácil para alguém com um jeito muito tranquilo de ser. Era seu hobbie favorito! 
Ele já tinha pescado em rio, lago, em tudo quanto era lugar que tivesse peixe. Na sua casa, guardava fotos de pescarias memoráveis com grupos de amigos, em excursões por este Brasilzão afora. Tinha que ter registro, para não parecer estória de pescador. Ele não era muito de se gabar, mas se puxasse assunto....emendava um "causo" no outro! Dois dedinhos de café, o inseparável maço de cigarros e pronto, o tempo parava para a gente ouvir ele falar, com sua voz grave, seu incrível bom humor e seu dom de oratória de dar inveja a qualquer político. 
Seu Zé era figura simples. Morava com a irmã desde que separara da esposa, desgosto do qual nunca se recuperou, mas jamais se queixou. Era de sofrer calado, para não preocupar os quatro filhos, já criados. Não carregava nem mágoa, nem amargura em seu coração de ouro, muito pelo contrário: tinha uma alma boa e nobre. 
Difícil era não se encantar por ele. Dos amigos do clube de pesca (do qual era redator do jornal informativo) às enfermeiras que dele cuidavam nos hospitais em que o corpo cansado o obrigava contrariadamente a ficar, cativava a todos. Seu Zé tinha pinta de lorde inglês, com seu jeito educado, vocabulário vasto e rico, e pelo andar altivo, e ao mesmo tempo era o típico caiçara, de quem não precisa de muita coisa pra viver, sem se preocupar com as fogueiras de vaidades do mundo. Com aqueles olhos pequenos, que eu nunca soube ao certo se eram verdes ou azuis, ele enxergava longe, fosse um olhar para o passado, ou para o futuro. A religiosidade trouxe a serenidade que ele precisava para encarar os males do corpo, combalido por anos de doenças crônicas, e o ensinou a não temer a morte, tema sobre o qual discursava sem problemas. Tinha paixão pelos livros, lia muito, o que tornava suas conversas sempre interessantes, e apurava seu gosto. Não gostava de ver televisão e só ouvia música clássica. Estudava a bíblia a fundo, sempre fazendo ensaios sobre diversos temas religiosos, que copiava numa pasta e guardava, para compartilhar com quem não se entediasse diante do tema. Era religioso sem ser chato, nem insistente, jamais impunha aos outros suas crenças. Eu podia ficar horas a fio ouvindo ele falar, sem me cansar. 
Eu só não era boa compania de pesca. Tinha pena dos coitados capturados, e ao menor descuido, devolvia-os à água. Não suportava ver os pobrezinhos agonizando lentamente. Com isso, declinava cada vez mais de seus convites, procurando não entristecê-lo por isso. Mesmo sem dizer diretamente, seu Zé entendia o recado e me convidava cada vez menos. Até que por conta do mestrado eu virei uma exímia matadora serial de peixes, e passei a ter menos pena daqueles que mais tarde se transformariam numa bela iguaria pelas mãos talentosas de seu Zé, um cozinheiro de primeira. E passei a acompanhá-lo mais nas pescarias, pelo simples prazer de 
observá-lo. E eu passava horas a fio assim, vendo ele jogar o anzol, recolhendo a linha no molinete, ajeitando a vara entre as pedras. O cheiro de sal vindo do pote de iscas, a maresia, a brisa suave, o boné surrado cobrindo a careca, os chinelos sujos de areia, tudo isso entremeado de bom papo, quase sussurrado, pra não espantar os peixes. É assim que eu gosto de lembrar dele. Do gosto bom do seu peixe com pirão. Das risadas gostosas. Do carinho. 
Aprendi a cozinhar com ele, tenho a mão do seu tempero. Foi assim que tomei gosto pelo pimentão, pelo azeite no lugar do óleo, colocar cebola em tudo....Ele sentava na cozinha e ordenava: pegue isso, lave aquilo, mexe um pouco mais o refogado, e eu ia fazendo, sob sua supervisão. Era a ajudante oficial. E os doces? Nosso bolo de baunilha com recheio de creme de ameixas ainda é imbatível! 
Com o tempo fui vendo o seu Zé cada vez menos, uma dessas peças que o destino insiste em nos pregar. Isso tornou suas visitas ainda mais especiais e mais comemoradas, intensas. Eu era capaz de relevar até mesmo suas baforadas de cigarro, só para ficar perto dele. Cansava de brigar com ele por conta do maldito vício, desisti depois de muitas tentativas. Bonachão como todo neto de italiano, ele brincava dizendo que era pra gente levar cigarro pra ele lá no túmulo, quando morresse. Ele misturava caduquices e verdades com tanta inteligência, que a gente também brincava com ele, dizendo que o dia em que ele caducasse de verdade, a gente não ia nem perceber a diferença. 
Não era só de pescaria que o seu Zé entendia, mas da vida. Esta lhe deu tantas reviravoltas, tantos revezes, que só sendo muito forte para aguentar os trancos. Em cada batalha ele acumulou experiência, sabedoria, discernimento, e sabia a dose certa a oferecer a quem procurasse um de seus conselhos. E com que maestria falava das coisas do coração. Só mesmo conhecendo o seu Zé Carlos pra saber. 
Hoje, 11 de novembro, o seu Zé estaria completando 70 anos de vida, se estivesse entre nós. Mas Deus o chamou para pescarias maiores e mais longes. Hoje, seu Zé é pescador de estrelas. E lá em cima deve continuar espalhando a sua boa prosa. 
E até que possamos pescar juntos de novo, vou matando um pouco da imensa e esmagadora saudade que tenho dele, ao recordar o ser humano fantástico e maravilhoso de quem eu tenho a imensa honra de ser a filha primogênita. 
Feliz aniversário, papai, onde quer que você esteja.

O pescador de estrelas

Hoje meu pai completaria 79 anos. 
Sei que ele estaria fazendo piada de si mesmo, olhando pras pontas dos dedos esbranquiçadas e dizendo : estou começando a regenerar, quero estar ótimo pra festa do meu centenário na praia de Copacabana! 
Ele também diria que não liga pra aniversário (nunca ligou mesmo). Logo em seguida falaria do meu, daqui dois dias. E terminaria com um comentário sobre convenções sociais e coisas desse tipo.
Ele iria amar os dois netos!!! Teria o maior orgulho do mundo do Tiago ser tão inteligente e educado e certamente diria que puxou ao avô. Laura seria sua mais nova princesa e não sairia de perto dele e de suas estórias fantasticamente inventadas.
Os cabelos dele estariam mais brancos. Talvez ele tivesse recuperado o peso de sempre, perdido no tratamento da quimio...quisera eu que ele tivesse conseguido parar de fumar de vez, assim como a mamãe.
Quem sabe estaríamos todos planejando uma grande festa pro ano que vem, os seus 80 anos!
Mas nada disso aconteceu ou vai acontecer. São 13 anos de saudades, de ausência, de lágrimas derramadas de vez em quando. O seu Zé não está mais conosco. Normalmente dizer isso não dói, mas hoje....ah...hoje a saudade doeu sim. Hoje eu queria ouvir sua voz grave me chamando de Cacá. Eu nem ligaria se ele confundisse minha voz com a da Calu. Hoje eu queria dizer um eu de amo do tamanho do universo pra ele!! Será que eu disse? Será que foi suficiente? Talvez nunca seja, não é mesmo?
É tempo de deixar os "e se?" pra trás. Não há como voltar no tempo e nem como modificar nada, então pra que sofrer?
Um dia nos reencontraremos, papai, eu creio. Num outro plano, numa outra forma de vida, de um outro jeito....na glória. Até lá, vou sentir saudades suas, meu pescador favorito. Beijos da sua princesa